Oh f… here come the Brazilians

Há poucos meses atrás eu finalmente tive coragem de tirar do papel um projeto completamente diferente dos que eu geralmente me envolvo, criei um podcast onde entrevisto designers brasileiros que hoje moram nos Estados Unidos, mas antes de entrarmos no mérito do título desse post, eu gostaria de explicar como nasceu o podcast ExPatria porque a conclusão desse texto é resultado da existência do projeto.

Migração

Em 1998 eu saí de Curitiba para ir morar na Itália, na época, sem internet, era muito difícil achar qualquer tipo de informação, até algo que hoje parece trivial, como por exemplo achar um numero de telefone era extremamente difícil, email então esqueça, já existia mas poucos tinham acesso. Só a partir do momento que coloquei meus pés em terras italianas que finalmente consegui ir atrás de informações, desde achar lugar para morar, até começar a entrar em contato com agências e estúdios de design para tentar arranjar um emprego. É de se assustar, mas naquela época, tinha que achar uma lista telefônica local, e caçar números para ligar na cara dura e tentar uma entrevista, eu tenho isso anotado até hoje — 187 ligações, 8 entrevistas (tentando fazer se entender em italiano) que resultaram em 1 emprego.

Alguns dos meus colegas de trabalho na extinta Lupo & l’Agnello, em Milão.

Anos depois eu voltei ao Brasil, e em 2013, me vi novamente mudando de país, dessa vez o destino era os Estados Unidos. Claro que tudo foi diferente, não só pelo fato da internet existir mas dessa vez vim por motivos de trabalho, alugamos um apartamento pela internet, já conhecia a vizinhança toda pelo Google Maps, já sabia tudo de documentação, como nos locomover, etc… simplesmente impensável lá em 1998. Mas, confesso que mesmo com a internet, ainda foi difícil entender todas as nuances do dia-a-dia, vistos, melhores regiões para morar, locomoção, etc… acredito que foram uns bons dois anos até nos adaptarmos e entendermos razoavelmente bem todos os detalhes, e mesmo assim, ainda continuamos aprendendo.

Foi em 2016, conversando com a minha esposa, que pensamos em criar um guia com todas essas preciosas informações que aprendemos no decorrer desses primeiros anos por aqui, publicamos o guia em formato e-book na Amazon do Brasil e por mais que não tinha vendido milhares de cópias, estamos felizes pelos comentários das pessoas que compraram e acharam que o conteúdo as ajudou.

Plug and Play

Eu encontrei no formato podcast uma maneira fácil de continuar escutando programas que eu ouvia quando morava na Itália, e mais tarde fui descobrindo outros e hoje tento arranjar tempo para escutar todos aqueles que gosto. Adoro esse formato porque escutar não requer tanto empenho de tempo e atenção como um vídeo ou leitura por exemplo.

Alguns podcasts que escuto 😃

Há cerca de um ano atrás, comecei a pensar em produzir um, a idéia inicial era ter conversas com designers em geral, sem muito foco, mas o tempo foi lapidando a idéia e cerca de 4 meses atrás as coisas ficaram mais claras. Seriam sempre conversas com designers, mas com alguns filtros, por exemplo: brasileiros que estivessem morando nos EUA e trabalhando na área, de preferência em empresas conhecidas/grandes e nada de falar sobre processos, UX/UI, etc… iríamos conversar sobre adaptação, cultura, montar um portfólio, fazer networking… enfim, ajudar as pessoas que pensam em sair do Brasil.

Depois de dois meses produzindo o ExPatria, me parece claro que a idéia do podcast foi de resolver todos os problemas que descrevi na primeira parte desse texto. Com certeza eu não era o único que tinha vontade de sair do Brasil, imagino que as coisas não devem ser diferentes hoje, uma quantidade enorme de designers que tem interesse em uma experiência no exterior, seja ela temporária ou não, mas que muitas vezes não se aventuram por simples falta de informação e apoio, por mais que esse venha verbalmente de um desconhecido — vai lá, tenta, não é tão difícil quanto parece! — e agora não sou só eu dizendo isso, conversei com nove designers que afirmam a mesma coisa, uma experiência no exterior não faz bem somente ao seu portfólio mas muito além disso, muda você, para melhor.

Ligando os pontos

Existem algumas constantes nas entrevistas, e uma delas em particular me chamou mais atenção se comparado as outras. Quando pergunto se o entrevistado vê alguma diferença entre o designer brasileiro e o americano (ou de qualquer outro país), a resposta é unânime — O brasileiro faz mais com menos, ele vai atrás, ele cria e executa sem recursos e mais rápido — chegaram até a comentar que os “gringos” ficam preocupados quando chega um brasileiro no time, porque todos sabem que o ritmo vai mudar. Mas atenção, isso por si só não é algo de se orgulhar, se pensarmos um pouco, somos mais “raçudos” porque nossa cultura de designer, principalmente de agência, é de matar jobs o mais rápido possível, é de varar noites montando apresentações para concorrências, é de trabalhar com software pirata e dar um jeito de entregar seja lá o que pediram, essa nossa maleabilidade é um reflexo do nosso mercado de trabalho.

Para facilitar meu pensamento, eu acho importante dividir nosso trabalho em duas partes, a primeira é a metodologia de design e a segunda é a execução. As duas partes funcionam em perfeição juntas, mas a realidade pede adaptação e as vezes precisamos entender qual parte do processo vai sofrer para um bem maior.

Voltando as entrevistas, ficou bem claro que os designers de outros países seguem o processo bem bo-ni-ti-nho, é o lado acadêmico que entra em jogo, passo por passo, organizado… mas não por isso perfeito! Eu lembro muito bem quando duas UX designers gastaram um mês (tempo precioso em um projeto de 6 meses) indo e vindo com user journeys e wireframes para lá e para cá, para no fim chegar a conclusão que todos já sabiam, e você pode muito bem dizer — mas elas validaram o produto — sim, um produto que o mercado já tinha validado, é um bom exemplo onde precisamos de mais execução e menos metodologia (adapte!), em outras palavras, mais protótipos e feedback com business e usuários e menos reuniões intermináveis discutindo wireframes monocromáticos. E claro que essa não é a regra, mas é aqui que entra o valor do designer brasileiro e o ponto principal desse post, não podemos perder nossa mágica, forma e função caminham juntas, metodologia e execução também! Não entrem nesse labirinto acadêmico que só ensina designers a seguirem um processo e que a execução final do produto pode ser qualquer coisa — o importante é que funcione — , não, não é 😠. Nossos produtos conversam com humanos, com emoções, reações, hoje temos dados que chegam de todos os lados e guiam nosso trabalho, mas dados não afetam a subjetividade que uma marca, um produto tem em uma pessoa. E pelo que ouvi nesses últimos dois meses falando com profissionais experientes da área, essa facilidade de abraçar o caos e resolver é uma característica nossa, que ao contrário de tantas outras que entram no campo do “jeitinho brasileiro”, deve sim ser preservada.

A — Excelente para democratizar o processo de Design fora dos times de design B — Realidade muito mais caótica

Que fique claro que esse não é um elogio ao Brasil, mas sim ao brasileiro, especificamente a todos os designers raçudos que no meio de tantas adversidades ainda conseguem brilhar nos quatro cantos do mundo! 👏 👏 👏

Acompanhe as entrevistas pelo site oficial do projeto www.expatria.co, e não deixe de compartilhar com amigos!

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Designer— Host of Expatria.co podcast — Newsletter The Design Edition — Mentor @trydesignlab — Conteúdo (mostly) em Português

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Al Lucca

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