O Design está morto. Longa vida ao Design!

Esse texto foi publicado originalmente no projeto Design 2020 criado pelo Vitor Guerra, resolvi re-publicar com algumas revisões.

Sou grato por ter tido a opção de escolher minha profissão, isso faz com que o nosso trabalho não seja um peso, fazemos o que gostamos de fazer, o que naturalmente nos condiciona a consumir uma quantidade de conteúdo enorme sempre sobre design, desde textos, posts, até podcasts, vídeos… E no mundo dos algorítmos, esse comportamento é prato cheio para polarização, desde as mais leves, como "designer deve saber código vs não" até níveis maiores, como o que vemos hoje na política.

O fato de você ler, escutar e ver conteúdo sobre design em um ciclo sem fim, vai fazer com que suas hipóteses sejam (quase) sempre validadas, artigos que pregam o lugar do designer na mesa de decisões, ou que enaltecem o papel do design como um diferenciador que “finalmente” as empresas se deram conta de explorar, ou o famoso artigo que mostra o retorno financeiro das empresas que investem em design tem em relação as outras, enfim, o vento sopra a favor, estamos aliviados que o mercado está faminto por design, excelente.

O tempo passa, e seu entendimento de design vai mudando de acordo com a sua carreira e questões um pouco mais amplas começam aparecer. Nas conversas que tenho por aí é fácil notar uma espécie de mal estar geral, não me refiro a discussões sobre Figma vs Sketch ou design sprints, mas sim, a quanto o design é realmente protagonista e responsável pelo sucesso de um produto ou serviço — design não é neccessário, é um diferencial? — ou quanto tempo você deveria investir em estratégia a longo termo ao invés de pensar na execução de pequenas tarefas imediatas.

Existe uma relação com aquelas histórias de pessoas que foram até o fundo do poço para retornar com um significado maior da vida, passamos de conversas sobre as diferenças entre UX e UI para conversas mais elaboradas, por exemplo, de como balancear o poder de decisão entre produto, design e tecnologia.

Ainda na linha dos questionamentos, sugiro que você leia o artigo do John Maeda — Design não é tão importante quanto imaginamos — e os reports da Mckinsey e da Invision. São documentos importantes para entender a nossa profissão hoje, e também, alimentos para a confusão e boas conversas, ou seja, de um lado pessoas, veteranos da nossa disciplina questionando nossas responsabilidades e do outro, documentos vendendo design como a solução para todos os problemas, com o detalhe de serem produzidos por empresas que vendem serviços de design.

Será então que chegamos em um ponto de reset geral? Temos que matar o Design como conhecemos e criar um novo que nos ajude a evoluir? Acredito que algumas questões podem nos ajudem a pensar a respeito:

Existe uma linha em que designers precisam deixar seu distintivo de protetor dos usuários de lado e entender necessidades do negócio, mesmo cientes dos impactos negativos na experiência?

Toda empresa precisar faturar, se você designer não levar em conta o modelo de negócio você faz um “desserviço” a categoria, pelo simples fato de não mostrar valor, de não justificar seu custo. As missões das empresas e seus times são sempre lindas e perfeitas, mas somente amor não coloca comida na mesa. Será que somos tão inocentes de acreditar que o banco X só quer dar uma experiência única para seus correntistas? Que a rede social quer conectar vc com seus amigos ao redor do mundo? Que a app de pedido de comida quer deixar sua vida mais fácil? Já pensamos no real impacto dos produtos que trabalhamos, qual o modelo de negócio que faz a máquina rodar?

  • Não

Porque no fundo estamos somente fazendo nosso trabalho, assim como tantas outras pessoas em diferentes setores, e sinceramente não tem nada de errado nisso. Mas, seria então mais ético, se parássemos de vender a imagem de paladinos em defesa do usuário, e simplesmente entendêssemos melhor as engrenagens da indústria que você trabalha e fazer o melhor dentro das suas capacidades?

Estamos gastando muito tempo pensando em estratégia e como defender o lugar do designer na mesa de decisões e esquecendo de entregar design de qualidade?

Faz tempo que venho me perguntando isso, não consigo ver valor em investir tempo e dinheiro para criar páginas e mais páginas sobre processos, missão do time, documentos sobre sistemas, onde vamos, quem somos, onde estamos… aliens existem? … tudo isso para um time de 4, 5 designers trabalhando em um MVP que ainda nem foi validado no mercado. Ou como entender produtos mediocres saindo de empresas com centenas de designers?

A verdade é que vivemos em tempos que as lideranças de design não tem fundação do que é Design (D com letra maiúscula), novos profissionais se apegam a teoria da academia e não conseguem entregar sem seguir o passo 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7… e influenciadores focam em discursos fáceis.

Se ficamos copiando funcionalidades um dos outros, somos realmente aqueles que trazem inovação?

O processo de design precisou se adaptar a era do MVP. Aquele velho modelo usado em agências onde você pegava o briefing com o cliente, e voltava dois meses depois com a solução acabou, muitas empresas estão sofrendo para se adaptar a essa nova realidade. Mas o modelo MVP, mais moderno, premia a velocidade, a evolução constante ao invés do “perfeito”, o que acaba perdoando a cópia escancarada ou simplesmente a duplicação de casos de sucesso, que quase sempre são medidos pelo retorno financeiro, ou seja, não arrisque, não crie, mas copie aquilo que funciona, custa menos e dá retorno, o podcast Wireframe da Adobe falou sobre isso recentemente.

Você realmente está usando um padrão de navegação por ser familiar ao usuário ou no fundo o que está em questão é a conversão=retorno financeiro?

E para ajudar, vivemos em um realidade onde os consumidores são plenamente "alfabetizados" em design, pois usam Apps e sites todos os dias, mais um ponto que pesa nas decisões na cultura do copy&paste.

Estamos deixando de criticar design mal feito porque não podemos nos sentir ofendidos?

Qualquer porcaria que seja publicada hoje vai receber elogios de todas as partes porque nos sentimos bem em dar feedback positivo, fazer com que as pessoas se sintam apoiadas, admiradas por terem “pelo menos tentado”… Vemos design questionáveis a todo momento, mas a reação da comunidade é sempre homogênea, tudo é lindo e maravilhoso, não existe mais uma regra de estética, somos todos designers então qualquer coisa vale. Tínhamos um nível mínimo de estruturas visuais, ser diferente, tentar explorar uma nova linguagem não é a mesma coisa que soltar qualquer layout no ar e ver a comunidade de designers sendo auto-complacentes com high-fives recíprocos, como disse o John Maeda em seu artigo.

Nós designers, por natureza temos um senso crítico muito grande, somos bons em aplicar isso em processos, regras, etc… visando sempre melhorar as coisas, mas somos extremamente defensivos quando discutimos o valor do que fazemos, sempre com respostas prontas pra tudo. Eu ainda acredito que design é importante sim, mas aquilo que antes era uma opinião blindada e pronta a ser defendida a ferro e fogo, começou a mostrar rachaduras. Já matei o velho Design na minha cabeça e estou tentando entender o novo Design, mas ainda tenho mais perguntas do que respostas, e sou consciente que essa discussão é maior do que eu, faz parte da maturidade da nossa profissão e sou feliz por fazer parte disso, longa vida ao Design!

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Designer— Host of Expatria.co podcast — Newsletter The Design Edition — Mentor @trydesignlab — Conteúdo (mostly) em Português

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